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Professora Ana Clara Guerra Marques Concede entrevista à Iberoáfrica na Arena das Artes 2024 do CEARTE

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Professora Ana Clara Guerra Marques entrevista Iberoáfrica CEARTE-Capa

Em alusão à realização da arena das artes do Instituto Politécnico Superior de Artes afeto ao Complexo das Escolas de Artes (CEARTE) Nº 9011; sob o lema “nós, as artes e o meio ambiente no centro”, a Rádio Iberoáfrica entrevistou a renomada pesquisadora angolana, docente e fundadora da Companhia de Dança Profissional Angolana (CDC Angola), Ana Clara Guerra Marques, que foi homenageada pelos seus anos dedicados à dança e à formação artística em Angola.

O Festival Arena das Artes – CEARTE 2024, que decorre de 28 a 31 de Maio, é organizado pela direcção da instituição e tem como objectivo a demonstração das competências humanas, artísticas, pedagógicas e profissionais de professores e alunos do CEARTE, por outro lado, o Festival visa homenagear todos profissionais que tiveram um papel fundamental na história e no desenvolvimento da instituição bem como nas artes e na cultura de Angola.

E no primeiro dia do Festival a homenageada foi a professora Ana Clara, uma das principais precursoras do CEARTE, cuja relação com a instituição data desde 1975. A Dra. Ana Guerra Marques foi a mentora para a área da dança da instituição e a primeira Directora da mesma, enquanto Escola Nacional de Dança em 1978, por indicação do poeta António Jacinto do Amaral Martins (com pseudónimo Orlando Távora), na altura Ministro da Cultura (1975-1978). A ela se deve a criação e a defesa do ensino profissional da dança em Angola, ao assumir em 1978, a direcção da única escola de dança existente no país. Com os alunos da escola, Ana Guerra Marques funda, em 1991, a CDC Angola.

Na sua primeira entrevista à Iberoáfrica, destacou:

  1. Depois de sensivelmente cinco décadas, que significado tem para si esta homenagem?

– Este momento traduz a minha história com o CEARTE, comecei a dirigir a escola em 1978, após a saída da professora responsável pelo curso, quando era aluna da escola, e fiquei dirigindo a Escola Nacional de Dança por indicação do antigo Ministro na altura, o poeta António Jacinto, que não se compadeceu com os meus argumentos, pois era muito jovem; todavia, com o tempo fui percebendo a importância que era de eu estar naquele lugar, ou seja, eu poder desenvolver o ensino artístico que eu tinha começado enquanto criança, pois, desde pequena já sabia que ser bailarina era uma profissão. E, portanto, começar isso de novo no nosso país, um país novo que acabava de conhecer a independência. E assim fui batalhando, fui continuando, desenvolvi o melhor que eu podia, dentro das condições que o país permitia, com a ajuda de professores de fora que vinham cá de vez em quando. Depois chegou uma altura que fui formar-me em dança, fiz a minha licenciatura e o meu mestrado, e em realidade eu olho para trás, e vou ser muito sincera, eu sou mesmo muito transparente – eu não posso dizer que esteja feliz, contente 100%, porque se se tivesse apostado nas artes, no ensino da dança por exemplo, nós nesta altura teríamos várias gerações de bailarinos, coreógrafos, professores de dança e esta escola teria um nível muito mais alto, já teríamos um ensino superior, ou seja, eu acho que não houve um investimento estatal suficiente no ensino das artes. E nós vemos por aqui, tantos anos depois, temos somente uma companhia profissional, temos uma escola que se debate com todo o tipo de dificuldades e mais alguma, temos alunos que precisam de muito mais, precisamos de bons professores – de níveis técnicos mais elevados, equiparados alunos de nível médio com outros de outras formações, por exemplo; mas os alunos têm um nível muito abaixo daquilo que é preciso ter… esta é a verdade, ou seja, a culpa não é dos alunos, não é dos professores, a culpa não é da instituição, há realmente um compromisso, uma obrigação grande que não está a ser devidamente assumida por parte das estruturas estatais, governamentais, que têm que olhar para esta Escola porque é uma Escola Estatal. É preciso que os professores tenham a formação certa para poderem ensinar e não basta ter licenciatura ou mestrado, tem que o ter naquela área, no caso, música, dança, teatro, por exemplo. Como nós sabemos, qualquer área artística é uma área do saber, por isso, há doutoramentos e pós-doutoramentos em dança, música, teatro, etc. em suma, a instituição não é aquilo que eu sonhei um dia, quando comecei muito jovem, cheia de ideias, de perspectivas. Passaram-se muitos anos e eu continuo a fazer o meu trabalho de investigação e sobretudo continuo a criar com os meus bailarinos, como coreógrafa, e, portanto, continuo a fazer este trabalho criativo, de partilhar com o público, de intervir para a mudança da sociedade através das peças que nós fazemos. E olhar para esta legião fantástica de bailarinos que eu formei na companhia, que estão sempre dispostos, que são realmente profissionais, isto é o que me faz perceber como foi importante tudo isto. Nós dançamos fora de Angola e o nosso país através da companhia é aplaudido em pé.

  1. Que tipo de apoios a companhia que dirige tem recebido a nível ministerial ou governativo?

– Como já mencionei, o nosso país através da CDC Angola é aplaudido em pé lá fora, porém, é uma companhia que não tem apoio, é uma companhia que está abandonada pelo Ministério de tutela, mas nós temos uma grande força – que é sermos profissionais, e isso vincula-nos ao nosso trabalho e ao cumprimento desta missão, que é contribuir fortemente para o desenvolvimento da dança profissional, intelectual de Angola.

  1. Há mais de 49 anos, a seu ver qual é o caminho que deve ser trilhado para que Angola esteja ao nível dos países que se desenvolveram e se destacam na área das artes? Considerando que uma sociedade não se faz apenas com médicos, militares e engenheiros, mas, e sobretudo com artistas, escritores e intelectuais.

– Os artistas, escritores e os intelectuais, isso aí… este é que é o coração das sociedades… Como tu disseste e muito bem, sabes… se não temos professores licenciados para assumir um curso médio, não podemos ter para assumir um curso superior, pois que para a licenciatura o professor deve ter no mínimo o mestrado. E além disso, não podemos ter uma Faculdade de Dança sem termos pessoas que tiveram uma formação convencional em dança, ou seja, não podes formar um professor de dança se ele não aprendeu e não assimilou no corpo dele o que é dançar. Pois, se ele não aprendeu de criança, se o seu corpo não foi transformado de jovem para esta disciplina ou arte, ele não pode demonstrar, um professor assim nunca poderá o seu aluno ter sucesso. Não podemos pegar em pessoas que querem dançar ou gostam de dançar e levá-las para leccionar na universidade, isto vai ser a desgraça completa. Portanto, o que é preciso? – As pessoas precisam de ter uma formação sólida anterior – prática e teórica, atenção, prática e teórica…, porque a universidade não é só para formar teóricos. Por exemplo, a minha licenciatura tinha a área de pedagogia e tinha a área de espetáculo, e a área do espetáculo formava bailarinos e coreógrafos, veja bem, na universidade. E eu formei-me como professora e para isso tive várias aulas prática de metodologias, pois, se não souber fazer não posso ensinar. No meu mestrado tive aulas práticas. Com isso devo dizer que os cursos artísticos necessariamente devem ser práticos. E o que devemos fazer? – Portanto, a nossa luta desde o início era criar um subsistema de ensino artístico. Ponham isto em todo lado – se nós não tivermos um subsistema de ensino artístico para proteger, para validar o ensino das artes não vai funcionar… esta é a nossa luta desde então, pelo menos desde os anos 90, em que nós começamos a organizar os documentos reguladores, eu, o Professor Gaspar, a Dra. Irene Guerra Marques, o Professor Jorge Gumbe, o Professor Norberto, ou seja, nós temos que ter o subsistema para o ensino artístico e não podemos andar a atirar o ensino artístico para o Ministério da Cultura para a Educação, da Educação para o Ministério da Cultura. Nós temos hoje o CEARTE, um Instituto Politécnico que não faz sentido nenhum… isto não pode ser um Instituto Politécnico, isto tem que ser – cada Escola deve ser um Instituto, porque cada Escola tem várias áreas, ramos e cursos… isto não funciona assim, com este formato não funciona, com estas disciplinas do Ensino Geral que não são necessárias para as áreas artísticas, ou seja, é tudo disfuncional… nós temos professores a darem metodologias que não são professores de dança… isto não é normal, não vai funcionar… assim não vai funcionar. Portanto, calemo-nos com o ensino superior, olhemos para o ensino médio e para o ensino elementar – vamos começar com as crianças, em dança começa-se com 10 anos, nem é preciso começar mais cedo, quarta classe feita, a criança entra para a escola artística. Ela deve ser escolhida, fisicamente ver se dá, se não dá, se tem ritmo, se tem condições para poder seguir e se tem talento, porque para se ser artista não é quem quer, é quem tem condições natas, isto é fundamental.

  1. A grelha curricular do Subsistema de Ensino Técnico-Profissional onde se insere o CEARTE, que certamente tem a tutela do Ministério da Educação corresponde às expectativas da dança no contexto actual?

– Claramente não… a parte do ensino geral não faz sentido nenhum, a parte do ensino artístico foi tudo supervisionado por mim. Criou-se um grupo de trabalho com professores cubanos e, portanto, o desenho curricular da parte artística, que não creio que esteja a ser implementada a 100%, todavia está completamente adaptada e é o suficiente para que tenhamos professores e bailarinos com um bom nível… médio, mas com um bom nível… claro que para se ser professor de dança deve-se ter um nível superior, não é possível de outra maneira. Ou criarmos curso médio de professores de dança, mas o formando deve estar ao lado de um professor com mais experiência para que ele possa iniciar. Isto seria como um plano ou curso médio de emergência para termos pessoas a trabalhar; só que isto falha quando os professore não têm aquele nível que devem ter, e não adianta estar aqui a tapar o sol com a peneira, nem a pôr panos quentes por cima de uma coisa que não está completamente bem e que deve ser resolvida a nível superior.

Precisamos de ter um subsistema de ensino artístico para validar e proteger só o ensino artístico, as escolas devem ter uma configuração específica. As escolas de arte não são iguais às outras escolas, não são iguais em todas as patres do mundo. Nós falamos sobre isso, só que de vez em quando aprecem umas pessoas que acham-se iluminadas e olham para nós como se fôssemos seres desprezíveis, e com os seus mestrados e doutoramentos noutras áreas querem vir dar lições… não dão lições boas, porque depois acontece assim… e isto não é por falta de aviso, eu mais do que ninguém gostaria de ver o ensino artístico no seu topo, e nós tínhamos condições para isso, nós somos pessoas ainda… percebes?… E depois é preciso verificar, e se preciso for, fechar durante um tempo o ensino para reorganizá-lo. Parece-me que vão fechar a Faculdade de Medicina – acho bem, porque quando as pessoas são formadas e não têm competências é um perigo muito grande para a sociedade. Um professor de dança malformado é tão perigoso como um médico malformado, porque pode fazer tantos estragos físicos e psicológicos nas crianças, nos jovens, nas pessoas.  Nós vemos professores aí que dão aulas a crianças com 3 anos de idade… nunca dei e nunca vou dar, apesar de todas as minhas formações nunca dei nem nunca vou dar… com o meu mestrado e todas formações, eu não sei dar aulas a uma criança de 3 anos de idade, não aprendi, não sei dar, não quero tocar, não quero estragar ninguém…para ganhar dinheiro?… Nunca faria isso.

  1. Há escassos dias celebramos o Dia de África. Que sentido tem para si esta data como artista e como acha que deve ser a valorização da identidade cultural africana?

– Nós temos as nossas particularidades, mas para mim, a identidade é uma coisa maleável, nós não nascemos com a identidade e não morremos com a identidade, vamos formando-a. A identidade é um processo justamente de assimilar e descartar permanente… nós próprios, cada pessoa tem várias identidades… há a identidade de ser homem, de ser mulher, de ser angolano, de ser do bairro tal…, portanto, como artistas devemos ter várias valências. A título de exemplo, nos programas que fazíamos havia importante parte de acervo e de conhecimento relactivo ao nosso patrimônio herdado, às nossas raízes, isso é fundamental. Mas também é muito importante que não nos fechemos no nosso quartinho em Angola ou na nossa sala em África e não possamos ser formados aqui e de repente ir dançar na Europa em França, ou na Costa do Marfim ou na África do Sul ou na Rússia… nós neste momento temos uma bailarina angolana a formar-se na Rússia, numa escola.

Agora, para pôr este nosso acervo na escola não é à toa, não é chegar, fazer vídeos e copiar. Faz-se através de um trabalho de investigação, de recolha, de tratamento e de estudo e tratar isso para matéria pedagógica. E quem pode fazer isso? – Só podem fazer isso metodólogos, com mestrados e doutoramentos. Há meios de levar isso para a escola – como eu faço com os alunos da CDC Angola quando preciso vem um mestre portador da cultura da parte do país que for e ensina na primeira pessoa pela experiência que tem; com workshops, por módulos…. Mas para isso é preciso saber… para dirigir é preciso saber, para dar aulas é preciso saber, para liderar é preciso saber.

  1. Conclusivamente, que mensagem deixa à vasta audiência da Iberoáfrica?

– O que eu posso dizer: artistas e não artistas, sejam vocês mesmos, continuem, o país é difícil, mas um dia vai ficar melhor, têm que acreditar… acreditem todos, continuem, vão com o vosso objectivo, não façam cedências desnecessárias, persigam o vosso objectivo porque aquilo que vocês querem, que têm na cabeça é a coisa certa.

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